quarta-feira, 4 de março de 2009

Considerações acerca do Respeito pela Vida

Este será, provavelmente, o post mais longo da história do Lemniscata. Não gosto de textos maçudos mas, neste caso, o tema surgiu pela pertinência da afirmação que a minha cara leitora Pandolet fez na caixa de comentários:

"PS: se respeitas a vida e as energias dos objectos, não devias incentivar ao uso de coisas em pele ;)"

Realmente, este é um tema com muitas implicações e, se por um lado, já tenho evitado discussões sobre vegetarianismo (porque quase sempre descambam numa guerra campal, muito à moda dos Homo sapiens), por outro lado acho que esta é uma excelente oportunidade para partilhar o que penso sobre o assunto e, talvez, trazer a lume algumas considerações que muitas vezes passam ao lado.

Antes de mais, começo por esclarecer que não sou vegetariana - já fui mas deixei de ser. Como e porquê? Vou tentar explicar...

Há uns anos deixei de comer animais porque achei que, pelo facto de ter inteligência suficiente para sobreviver sem ter de os sacrificar, estaria numa posição de obrigação moral em tornar-me vegetariana. Mais tarde não pude deixar de admitir que também as plantas são seres vivos e Herdeiras da Terra, tal como os animais. Aliás, que as plantas também estão vivas é o eterno argumento dos "comedores de carne" quando se discute este assunto - e é inegável. O facto de elas não terem sistema nervoso central, torna-as menos merecedoras de consideração? Não! Efectivamente, se existem seres que eu devo respeitar e estimar, são as plantas: a sua pureza é inigualável e são elas que produzem nada menos que o oxigénio de que nós, animais, precisamos para viver.

Restou-me reconhecer que era "tapar o sol com a peneira"... Enquanto animal que sou, tenho de me alimentar - é a lei da natureza. Também reconheci que tenho dois pares de dentes caninos dentro da boca, como é próprio dos predadores. E também sei que foi o consumo de proteínas animais que permitiu aos primeiros hominídeos desenvolverem um cérebro mais complexo (fenómeno esse que fez de nós a espécie mais espatafúrdia de toda a criação, mas isso já é outro assunto). Segue-se que respeitar a natureza e a vida, não passa por negar o estado das coisas - suportar a própria vida com o sacrifício de outros seres viventes é a nossa condição.

Assim sendo, desisti do vegetarianismo e adoptei um outro sistema que me pareceu mais lógico. Como carne e peixe de um modo que considero equilibrado - uma ou duas vezes por semana - e desaprovo a forma desmesurada com que, actualmente, se faz criação de animais para abate e se consome os seus produtos. Este consumo desenfreado é o outro extremo - outro absurdo...

No tempo em que os Homo sapiens ainda viviam com a Terra, caçava-se um animal (ou, mais tarde, abatia-se um animal criado para isso) e toda a família se alimentava dele por um longo período de tempo. Todas as partes do animal eram aproveitadas, desde a carne, às vísceras, aos ossos, dentes, unhas, pele ou penas - não havia desperdício. Habitualmente, o acto da caça (ou da matança) era ocasião para rituais, celebrações e outras formas de prestar homenagem à vida (à nossa sobrevivência) e ao animal que era sacrificado - da mesma forma que também se faziam rituais, oferendas, etc. pelas colheitas. Na origem, ainda não se tinha perdido a noção das coisas - o sacrifício de uma vida não era tomado de ânimo leve, de tal modo que muitas das antigas divindades eram zoomórficas, pois existia a sabedoria da Terra e os animais, bem como todos os seres, eram devidamente respeitados.

Hoje tudo é facilidade e desperdício, tudo tem um preço e as economias de mercado parecem permitir todos os atropelos. Infelizmente não posso impedir que o dinheiro mova o mundo e também não posso jogar com as cartas que gostaria de ter - apenas com as que tenho nas mãos. Não posso impedir que se continuem a criar animais e a abatê-los industrialmente para alimentar uma população humana excessivamente densa e ávida de luxos, sacrificando o meio-ambiente, as outras espécies e a própria saúde. A dada altura da minha vida cheguei a servir às mesas e, o que mais me impressionou nessa experiência foi constatar a quantidade imensa de comida que fica nos pratos e que vai para o lixo... Por vezes, ainda ouvimos as mães falar às crianças dos "pobrezinhos que não têm o que comer" sem que ninguém se aperceba que é igualmente grave o facto de termos pactuado na morte de um ser e essa morte ter sido em vão. 

Pegando, finalmente, nas peças de artesanato feitas em pele e que deram o mote a este post... Elas são feitas a partir de pele de vaca - das mesmas vacas que, raramente, fazem parte da minha dieta. Têm sido o resultado da reciclagem de umas velhas calças de motard que me foram oferecidas por uma amiga. Curiosamente, já são uma reciclagem em segundo grau pois a minha amiga recebeu-as de alguém que as ia deitar fora. Apesar de não lhe servirem, ficou com elas por pena do desperdício e mais tarde lembrou-se de mas trazer para que eu as transformasse em algo útil.

Desde então tenho desenhado peças maiores e mais pequenas, de modo a aproveitar ao máximo o material e sem nunca me esquecer de quão especial ele é... da mesma forma que faço questão de nunca deixar restos no prato à hora da refeição. 

Posto isto, penso que se torna claro que não incentivo o "uso de peles" mas sim o total aproveitamento dos recursos que a nossa espécie retira do planeta. Se dependesse de mim, essa extracção seria muito mais regrada mas... como não posso agir em nome da Humanidade faço pelo menos a minha parte e incentivo seriamente a que toda a gente faça o mesmo, a saber:

- Reduzir o consumo de produtos animais
- Reduzir substancialmente a produção de lixo orgânico
- Reduzir o consumo de água e apoveitar, sempre que possível, a água da chuva
- Reutilizar e reciclar por si mesmo todos os materiais possíveis
- Depositar nos ecopontos todos os recicláveis que não possam ser transformados em casa
- Ter plantas (sabiam que apenas 1 vaso renova o oxigénio de uma sala de 15m2 num dia?)
- Limitar o uso de produtos químicos
- Dar preferência a produtos biodegradáveis
- Dar preferência a produtos feitos a partir de reciclagem
- Aprender a cozinhar, a costurar e a cultivar

12 comentários:

Jardineira aprendiz disse...

Nestes assuntos, e sem querer ferir ninguém, porque a questão da Pandolet é natural, eu diria 'quem nunca pecou atire a primeira pedra'. Para termos a certeza que nenhum dos nossos actos é lesivo do mundo natural, teríamos que analisar todo o processo produtivo de todos os objectos que usamos ou consumimos. Infelizmente ninguém é inocente, por muito que queiramos, vivemos num sistema em que directa ou indirectamente (e é muito fácil ignorarmos este indirectamente), passamos por cima dos direitos dos animais, ou dos ecossistemas, ou dos outros povos da terra.

Para não o fazermos teríamos que adoptar modos de vida radicalmente diferentes do que temos. E seria (será, mais tarde ou mais cedo) necessário que o fizessemos todos, e não apenas um punhado de excêntricos.

Por isso acho que a tua atitude é excelente. Seria muito bom que muita gente ouvisse e fizesse o mesmo.

Miguel disse...

Não podia estar mais de acordo. Tenho medo que este teu post me faça destar a falar, e me leve a deixar o maior comentário da história :P

Acontece que muitas coisas que aqui referes são o mote para outras dsicussões onde a discordância de opiniões é largamente maior. No caso do uso das peles, é certo e sabido que não faz qualquer sentido, quando hoje em dia se produzem fibras sintéticas em larga escala, sem recorrer a qualquer tipo de sacrifício para ser vivo algum. No entanto aqui o assunto é outro, trata-se de reciclagem, e tendo em conta a enorme mundo de lixo em que vivemos, era bom que existissem cada vez mais pessoas a pegar em coisas assim e fazer algo novo. Como sabes as minhas ideias não são muito diferentes das tuas, mas ainda bem que tu as escreves e apresentas melhor que eu, porque na maior parte das vezes não me consigo explicar da forma como gostaria porque sinto que há limites para a estupidez, e para a ignorância global! Penso que às vezes é demais, acho que já ninguém pode dizer que não sabe o que se passa, e tem de se acabar com o discurso conformista de que sozinhos não podemos fazer muito, porque basta praticarmos este tipo de coisas para que pelo menos à nossa volta, diversas pessoas sintam que podem fazer o mesmo, e irão talvez sentir-se mal por não o fazer.(Espero estar a explicar-me decentemente)

O tema que inicialmente desenvolveste para dar início a este post, é um tema que mexe muito comigo. A ligação que o homem teve com a Terra, e que se foi perdendo. Isso será talvez tema de outras conversas, mas muitas vezes sinto que é a base de tudo! Algures no tempo começámos a achar que a VIDA, possuia valores diferentes, que a vida que foi concedida a todos os seres, tinha valores diferentes, o nosso e o da dos restantes seres vivos do planeta.

Para quem não saiba, será também pertinente referir que aquando da elaboração da "Origem das espécies", Charles Darwin baseou-se num trabalho de um outro estudioso para fundamentar ainda melhor a sua teoria. Esse estudioso era Malthus, que havia referido o seguinte: Na natureza, o crescimento de uma determinada população é mais rápido do que a produção de recursos que essa população necessita.

Ora Darwin pegou neste argumento para fundamentar ainda melhor a sua ideia de selecção natural. Agora se pensarmos um bocadinho, e não é assim tão complicado, se a população mundial continuar a aumentar a este ritmo, serão necessários cada vez mais recursos para que todos possam viver(eu sei que hoje em dia já não chegam a todos por diversas razões, mas hoje existe um enorme excedente de alimento apesar de existir que morra à fome! mas não me façam falar! )
Continuando, de acordo com esta linha de pensamento é legítimo pensar que daqui a algumas centenas de anos a Terra não tenha espaço para produção de mais recursos assim como para ter mais pessoas. É claro que levei esta ideia ao extremo, porque o que quis mostrar com isto, apesar de parecer exagerado, foi apenas um raciocínio que todos deveríamos ter, porque eu sei que a questão é sempre a mesma: " E fazemos o quê?" No entanto, já que não podem fazer nada como se costuma dizer, pensem pelo menos de uma forma racional antes de agirem em certas situações, tenham pelo menos a presença de espírito para pensar nas consequências de uma forma mais global.
Ás vezes pergunto-me qual será o nosso papel enquanto o ser mais inteligente da criação...Não deveria ele ser uma vivência que estivesse em concordância com o nosso "nível de inteligência"? No entanto, quando me ponho a pensar nestas coisas e a ler novas informações aqui e ali chego à conclusão de que o fim da nossa espécie é algo necessário e natural, porque assim aconteceu ao longo de milhares de anos, e assim acontecerá de novo. Seremos com certeza um exemplo do que não se deve fazer para o que ou quem vier depois de nós, e talvez seja de facto esse o nosso papel, errar...

Não irei muito mais longe do que isto, quis só aproveitar este post da Lemniscata para deixar algumas opiniões, perdoem-me a extensão do comentário.

HAZEL disse...

Espectáculo, querida amiga.
Tu escreves mesmo muito bem. Quando for de férias, entrego-te a Casa Claridade para tomares conta do estaminé (e depois os meus leitores já não me querem de volta!)!

Não poderia concordar mais contigo.
Também, muitas vezes, me debrucei sobre a questão do vegetarianismo. Questionei-me se não seria uma crueldade comer animais. Concluí, da mesma forma que tu, que é a lei da vida, e que, para poupar os animais, teria de poupar também as plantas, que são seres vivos, cheios de energia, e merecedores de todo o meu respeito. Então, nada sobraria para me alimentar.

Sobre a reutilização da pele das calças, fazes tu muito bem. E que lindos trabalhos tens feito com ela, por sinal.

Estás apenas a reciclar coisas que mais ninguém iria utilizar e não teriam outro destino para além do lixo.

Tomara que todos fizessem como tu.
Aqui em casa, como sabes, também se reaproveita tudo, e aquilo que não quero ou não sei reutilizar, dou a quem lhe dê uma nova vida, um novo uso.

Também não deitamos comida fora. No outro dia, fiz uma massa de quiche (margarina, água e farinha), e fui ao frigorífico buscar todos os restos de comida. Havia esparguete, algumas batatas assadas, um bocadinho de arroz, um bocado de dourada assada e ainda meia fatia de rolo de carne.

Deitei isso tudo para dentro da quiche, depois misturei 2 ovos com um pacote de natas, para unificar, e devo dizer que o jantar ficou um manjar dos deuses. Com restos apenas. Que, se fosse noutra família qualquer, teriam muito provavelmente ido para o lixo.

Até as tiras que cortamos ao feijão verde nós aproveitamos. Guardamos num saco, e depois vamos à estação agronómica para o L. ter o prazer de dá-las às cabras.

Beijinhos!

HAZEL disse...

Eh pá! E eu a pensar que o meu comentário era um testamento...!
O Miguel ganhou-me!

;-)

Shin Tau disse...

Olá minha querida,

de facto tudo questões pertinentes. Eu quando decidi deixar de comer carne não tinha a ver com o facto de estar a matar animais, mas era um grito meu contra o forma como hoje os animais são tratados, não que os vegetais sejam muito diferentes, mas enfim...decidi começar por algum lado. A outra coisa que me levou a ser "vegetariana" foi o facto de a carne dos animais tornar-me mais densa, logo mais violenta, sei que muitas pessoas dirão que isso é treta, mas foi a minha experiência pessoal. Como Carneiro eu era bastante agressiva e quando deixei de comer carne, fiquei mais serena, conseguia entrar em estados meditativos com mais facilidade, enfim, estava mais leve. Confesso, que aos poucos fui deixando a ideia de lado, pois eu gosto de algumas carnes e quando me apetece como, mas já não faz parte da minha alimentação diária.
Tudo isto para dizer que como tu, acho que só podemos fazer a nossa parte, a minha razão pode não ser a mais válida, mas para mim é-o e fez alguma diferença.
Acho que só podemos mesmo continuar firmes com as nossas crenças e talvez possamos influenciar os outros, mas devemos continuar firmes com as nossas decisões até ao fim. O facto de usares couro, mesmo que o tivesses comprado, era uma decisão tua e todos temos incoerências hihihihih

Este post deixou-me com água na boca, só de pensar no que um dia farás sobre Dionisio! Adoro a tua forma de escrever!
Beijos e continua a reciclar as coiasas e a dar forma a este caos de consumo que hoje vivemos (todos!!!).

BEijos grandes

clau disse...

Ciao!
Eu passei por aqui para lhe agradecer a sua ajuda la no meu blog(e lhe agradeci ali tb)e de me salvar de passar um "carao", rss.
E tb por me lembrar que devo sempre checar as minhas informaçoes, mm qdo estou escrevendo coisas meio "tresnoitada",ja que a minha memoria nao é mais a mm de antes, e eu precisaria de um pouco de fitoestrogeno,rss.
E aproveito para lhe dizer que neste seu post aqui, vc colocou em palavras o que eu mesma sinto e penso sobre o fato de que, apesar de eu ser um animal onivoro, vejo valor em qq outro ser que divida comigo o nosso espaço neste planeta.Isto além de abominar qq tipo que seja de desperdicio, em qq nivel que seja.
Valeu!

Miguel disse...

ena, ficou mesmo grande...Desculpa :P

TELAS MINHAS disse...

Olá amiga
Vim agradecer a visita ao meu cantinho!
Desejo-te um excelente fim de semana e um grande dia da Mulher
Beijocas
Rute

marian disse...

Vim conhecer este blog... via casaclaridade :) Tal como ele este tambem é um blog positivo e cheio de imaginação.
Já que se fala em vegetarianismo... deixo meu pitaco: sou veg. faz bastante tempo, mas não fanática! rss... ou seja, não diabolizo quem não é. Por outro lado alem das, regra geral, condiçoes terriveis de vida para os animais criados p/ fins alimentares, tenho em conta a questao de que as plantas, tanto quanto percepcionamos, tem um nivel de sofrimento diferente dos animais por nao terem snc e tambem de que os humanos nao têm sistema digestivo tipico de carnivoros. presumo que quem já "frequentou" o vegetarianismo sabe ao que me estou a referir.
Enfim, o ideal seria viver de luz rss, mas estamos distantes disso. Respeitando outras opçoes, sinto-me bastante bem com a minha decisao de nao consumir cadaveres animais
Parabens pelas bonitas criaçoes e ideias que por aqui estão ;-)

Ana Paula disse...

Olá amiga passei para espreitar as novidades e desejar uma bela semana.
Bjs
Paula

pandolet disse...

olá =) sou eu a culpada deste grande debate eheheh

antes demais agradeço-te imenso o facto de te teres debruçado sobre o assunto com tanta atenção e paciência e quero-te dizer que concordo contigo a 100%.
também eu não sou contra o consumo de carne, acredito que seja parte na natureza, apenas não o faço como posição contra a sociedade dos dia de hoje, o modo como se faz e chacina que é.

mas nem foi esse o motivo do meu post. foi mesmo o facto de ao contrario do que muitas pessoas pensam, a pele retirada aos animais não é sequer um reaproveitamento dos animais usados para consumo mas sim uma industria por si só.... animais que morrem em vão, em nome da vaidade, é algo que me enoja...

longe de mim querer julgar-te, nunca foi essa a minha intenção e não sou ninguem para o fazer...estava apenas a tentar fazer aquilo que tu fizeste, partilhar a opinião com os outros e quem sabe chamar algumas pessoas
á causa ;)

já me podias ter dito que a pele é reaproveitamento, sendo assim estou 100% contigo ;)

espero que não tenhas levado a mal a minha intervenção e fico contente por teres tido uma exaustiva abordagem ao tema.

beijinhos e obrigada, já gostava do que fazias e agora gosto ainda mais! ;)

analuciana disse...

Há uma série de coisas que não podemos controlar, porque de facto, ainda que indirectamente fazemos parte desta bola de neve. Não sou vegetariana, mas sempre que na estrada passo por um camião com animais para abate não deixo de me sentir bastante incomodada. Mais pela tal morte em vão, do que pela morte para alimentar outros. Ora vejamos os restos que ficam nos pratos, a comida que vai para o lixo, descaradamente e sem pudor, ou até os animais que são abatidos como se fossem números a apagar quando têm uma doença qualquer.
Somos ignorantes ao ponto de darmos tiros nos próprios pés e de envenenar a cadeia alimentar.
Cada vez mais acho que devemos investir na reutilização, na transformação, na reinvenção, o que não serve para nós poderá ser o ideal para alguém, e controlar ao máximo o desperdício de recursos.